SAÚDE DA MULHER | Apontamentos sobre prazer sexual feminino por Ana Alexandra Carvalheira

Um assunto relevante e importante, mas mal compreendido e mesmo (infelizmente) desconhecido por umas quantas mulheres e outros tantos homens.

Começo por declarar que estes apontamentos não serão mais que um conjunto atrevido e eventualmente abusivo de generalizações sobre um tema complexo onde impera a diversidade, e por conseguinte, terei que assumir o risco de ser simplificadora ou redutora. Ainda assim, trata-se de um assunto relevante e importante, mas mal compreendido e mesmo (infelizmente) desconhecido por umas quantas mulheres e outros tantos homens. Oxalá estes apontamentos possam servir de pretexto ou inspiração a algumas mulheres para uma reflexão pessoal sobre este tema transversal a toda a nossa vida, que nos pode trazer felicidade, mas que às vezes não traz, e outras é como se não existisse.

Os apontamentos que partilho de seguida, pressupõem o prazer sexual num contexto interpessoal, ou seja, com outro alguém. No entanto, o prazer feminino pode e é muitas vezes, um prazer “a solo”, e não por isso menos rico de possibilidades. Assim, cá vai um conjunto de notas sobre o tema, ficando no entanto muito por dizer.

Apontamento nº 1: Estímulos adequados e suficientes são condição sine qua non para o prazer. Cada mulher precisa do que precisa, e para saber o que é, deve conhecer bem o seu corpo e saber o que ativa ou acende a sua excitação sexual. E depois, de alguma maneira, com uma linguagem mais verbal ou corporal, deve ser capaz de transmitir isso ao parceiro/a. Sim, porque a outra pessoa não adivinha, não tem como saber. E para além disto, importa não esquecer que os estímulos que funcionam aos 20 anos não são os mesmos que agradam aos 40, 60 ou 70. A sexualidade da mulher muda ao longo da vida, e é um processo contínuo de descoberta. A idade acrescenta maturidade, e favorece a perseguição mais livre do prazer sexual. Aliás, é interessante notar que a consistência orgástica (em atingir o orgasmo) aumenta com a idade. Bom, também é preciso dizer que por vezes o melhor estímulo pode ser mesmo trocar de parceiro/a. A novidade foi sempre um componente forte no erotismo feminino.

Apontamento nº 2: O clítoris é o ator principal na cena do orgasmo feminino. De uma vez por todas, temos que saber isto! Trata-se de uma estrutura anatómica em forma de “V” invertido, com dois corpos cavernosos-erécteis com 9 cm de comprimento, muito para além da pequena glande visível com 1 ou 2 cm. Esta estrutura interna possui milhões de terminações nervosas, e constitui o tecido mais enervado do corpo humano. Por conseguinte, é uma estrutura altamente sensível, que aguarda ser estimulada. E a estimulação do clítoris pode ser mais direta (por exemplo, no sexo oral), ou mais indireta (na penetração vaginal). Por isso, não existe essa distinção entre orgasmos vaginais e clitoridianos. Existe o orgasmo e ponto final. E para o conseguir, toda essa estrutura – interna e externa – está envolvida. No entanto, a vagina não está excluída nesta cena, muito pelo contrário. Apesar de aí existirem menos recetores nervosos, a penetração vaginal é para muitas mulheres absolutamente fundamental na cena do prazer, havendo posições sexuais mais facilitadoras do que outras, o que mais uma vez depende de cada mulher e do momento que se vive. Pois bem, é a maravilhosa complexidade da genitália feminina, está quase tudo escondido.

Apontamento nº 3: O cheiro é um elemento primordial num encontro erótico. Entre todos os sentidos o cheiro é o elemento mais poderoso na atração e excitação sexual. A ciência já comprovou isto sobejamente. Refiro-me ao cheiro natural do corpo, antes de ser encoberto pelos produtos artificiais que lhe deitamos em cima, desodorizantes, cremes, perfumes, que mascaram, escondem e confundem o olfato. Não estou contra a indústria dos perfumes, de modo nenhum, apenas em defesa do foco de atenção no cheiro natural da pele, e no olfato, o sentido mais primitivo e fundamental no sexo. E já agora, atenção que um perfume que fica bem numa pessoa, pode não ficar noutra, porque a fragância produz uma reação química diferente em cada pele.

Apontamento nº 4: Para além do sensorial, o cérebro desempenha obviamente um papel central. É o nosso cérebro que dá significado às sensações, mas também por outros mecanismos envolvidos. É o cérebro que permite a entrega, o deixar-se ir, e o mais importante de tudo, a perda de controlo. Para ter um orgasmo é preciso perder o controlo, o orgasmo é em si uma perda de controlo, o expoente máximo do let it go. E para isso, a cabeça tem que deixar. E neste ponto, o grande inimigo são as preocupações, o stress, e todos os pensamentos intrusivos que invadem a cabeça da mulher, sem ela querer. Outro fator que pode inibir o orgasmo, sobretudo nos primeiros encontros e quando existe um contexto emocional, é o medo da entrega, e a insegurança relativamente aos sentimentos do parceiro/a.

Apontamento nº 5: Para o prazer sexual feminino importa o antes, o que antecede o sexo, ou seja, basicamente, sentir-se desejada, cuidada, observada, e atendida nas suas necessidades. Pois é, sobretudo nas relações de longa duração, porque o desgaste é maior, a rotina instala-se, e o erotismo do casal está mais ameaçado. Os estímulos que outrora acendiam o desejo e o prazer, já não funcionam. É preciso um maior investimento na erotização da relação.

Apontamento nº 6: Também é verdade que às vezes, o que mais vale, é ser inesperado, súbito, e arrebatador. Assim de repente, sem ser anunciado, ali, quando não se espera, quando não é suposto. Ser surpreendido tem um valor erótico inigualável.

Apontamento nº 7: O prazer feminino é muito relacional, ou seja, está muito entrosado na qualidade da relação com o/a parceiro/a. Se a relação não estiver bem, o prazer sexual está seriamente comprometido, ou é mesmo impossível. A cena do tipo “Zanguei-me contigo ao jantar, foste um idiota, mas vou fazer amor contigo para adormecer melhor”, não faz parte do universo feminino. Por isso se diz que o sexo é muitas vezes um barómetro da relação.

É inevitável afirmar as imensas possibilidades do prazer sexual feminino, porque encerra uma diversidade de estímulos e de caminhos para lá chegar. O prazer sexual das mulheres faz-se de uma imensidade de coisas. Os estímulos certos no momento certo, nem demasiado cedo nem demasiado tarde, a ponta dos dedos ou a palma da mão nos 2 metros quadrados de pele, um sussurro ao ouvido, a respiração, lugares proibidos em comportamentos de transgressão, mensagens doces ou picantes, sms, e-mails, sentir-se dominada, ou assumir o domínio, tirar a roupa depressa, com urgência, ou despir-se devagar, beijos, abraços, e muito contacto de pele. O olhar é um instrumento de comunicação erótica por excelência, mas as palavras também contam.


Artigo da revista VISÃO, publicado a 18 de Dezembro de 2015, escrito por Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.

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